domingo, outubro 20, 2013

A morte é uma piada

Martha Medeiros 

Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do
Casseta & Planeta deram seus depoimentos. Parecia que a qualquer
instante iria estourar uma piada. Estava tudo sério demais, faltava a
esculhambação, a zombaria, a
desestruturação da cena. Mas nada acontecia
ali de risível, era só dor e perplexidade, que é mesmo o que a morte
causa em todos os que ficam. A verdade é que não havia nada a
acrescentar no roteiro: a morte, por si só, é uma piada pronta. Morrer é
ridículo.

Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento
dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento
em cartório, colocar gasolina no carro e, no meio da tarde, morre. Como
assim?

E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o
telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?

Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco? Você passou mais de
10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que
não serviriam pra nada, mas se
manteve lá, fez as provas, foi em frente.
Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu.
Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter
certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à
profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma
vez foi em frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão
na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente
que gostou do seu tênis.

Qual é?
Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se
despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter
tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa
suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal e,
penduradas também,
algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar
suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você
deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas
coisas cuido eu.

Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce,
caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a
falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos,
fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres
magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem
vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério?

Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser
bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente,
e a mente também já rateia, sem
falar que há quase nada guardado nas
gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de
viver até a rapa? Não se faz.

Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas.
Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das
piadas. Só que esta não tem graça.

quarta-feira, outubro 09, 2013

A pipoca
Rubem Alves


A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".
Vocês já pensaram na dificuldade de se obter uma escuta analítica?
Partindo de um pressuposto básico sobre a conversa entre dois sujeitos, onde um fala e outro escuta, fica simples pensar nessa questão. Porque quando um sujeito fala, é instantânea a formação de pensamentos, opiniões, julgamentos, críticas e ideias em quem escuta. Lentamente, vamos caminhando no discurso do outro com as NOSSAS visões acerca daquilo que está sendo dito. Então, ao final do discurso, somos tomados a emitir uma opinião, um conselho, uma ajuda acerca do que nos foi confidenciado. Não é assim mesmo? Então isso basta para um analista?
LÓGICO QUE NÃO! Porque uma escuta analítica vai além disso. Ultrapassa todos esses pontos. É maior, mais interessante, mais especial e certamente MUITO mais difícil... Porque para escutar analiticamente temos que praticar a ISENÇÃO. Anular, esquecer, enterrar os nossos próprios conceitos, as nossas opiniões, as nossas sugestões, os nossos conselhos! Escutar analiticamente é estar oco diante daquele que nos fala. É estar vazio e aberto. Sem PRÉ - CONCEITOS, sem ideias, sem experiências pessoais, sem juízo de valor. Se não fosse assim, bastariam os amigos e não precisaríamos de analistas. Bastariam os livros de auto-ajuda. Bastaria a internet...

“Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, fica convencido de que os mortais não conseguem guardar nenhum segredo. Aqueles cujos lábios calam, denunciam-se com as pontas dos dedos; a denúncia lhes sai por todos os poros” (Freud)

Carolina Pasquote Vieira

quarta-feira, setembro 04, 2013

LEITURA INDISPENSÁVEL

"Freud observou que as queixas do paciente não correspondiam, necessariamente, ao desejo de cura. O apego a determinados sintomas evidenciou um gozo, nem sempre admitido, na manutenção daquilo que produz dor" (pag 16)

segunda-feira, setembro 02, 2013

Filme MAMA - suspense e reflexão

Diante de uma história de suspense extremamente inteligente, uma reflexão não pôde deixar de me ocorrer. Duas crianças, expostas a condições precárias de sobrevivência devido à morte dos pais, crescem privadas de relações sociais, mediadores de aprendizado e afeto. Muitas coisas podem ser pensadas a nível comportamental, mas a nível psicanalítico, faz-se importante um único questionamento: a necessidade da função materna. O filme nos leva a pensar que diante da imposição dessa falta, uma figura delirante aparece nesse lugar. Ainda que motivada pelo ciúmes e pela possessão das meninas, essa figura mantém um ponto de referência e cuidado, associados a figura materna propriamente dita. Isso começa a ser deposto quando uma mulher real passa a assumir essas funções, levando as crianças a fazer uma escolha: abandonar o delírio e reconstruir uma figura para ocupar o lugar da perda materna. Filme que pode ser MUITO interessante com um olhar psicanalítico.

quarta-feira, agosto 21, 2013

UM POUCO DE POESIA

"Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama, contudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto... plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"
William Shakespeare 

segunda-feira, agosto 12, 2013