Escola Francesa - Jacques Lacan

A mulher, de Lacan, que não existe

Jorge Forbes
O que Lacan sabia das mulheres? É a pergunta, em título, do Colóquio de Miami, em junho de 2013.
Nós todos conhecemos a resposta, Lacan a deu inúmeras vezes nos últimos anos de seu ensino. Ele a sintetizou em quatro palavras.
Lacan sabia das mulheres que: A MULHER NÃO EXISTE.
O que está condensado nessa oração aforismática é uma radical revolução no laço social, pois aponta a uma mudança de paradigma com implicações fundamentais na clínica e na vida em geral da pós-modernidade. É a isso que vou me dedicar a analisar nesse breve artigo:
a. como a mulher era vista;
b. o que há de novo quando a mulher não existe;
c. a possibilidade de um novo amor: a ressonância;
d. a segunda clínica: a consequência;
e. “a mulher de Lacan e a mulher de hoje”, tema dessa mesa.
Como a mulher sempre foi habitualmente vista?*
Começou como sempre, no começo. No Gênesis, quando Deus diz à mulher que levara o homem a comer o que não devia: “Multiplicarei teus trabalhos e misérias em tua gravidez; com dor parirás os filhos e estarás sob a lei de teu marido, e ele te dominará”.
        De lá até aqui, numa longa e inacabada história, a lista de impropriedades sobre a mulher só fez crescer. Os autores, paradoxalmente, são da melhor qualidade. Senão, vejamos.
         "Uma mulher estéril deve ser substituída no oitavo ano; aquela que perdeu todos os filhos, no décimo; a que só dá luz a filhas, no décimo primeiro; aquela que é azeda, imediatamente" (Código de Manu, século XIII A.C.).
        "A mulher é má. Cada vez que tiver ocasião, toda mulher pecará" (Buda, 600 A.C.).
        "As mulheres, os escravos e os estrangeiros não são cidadãos" (Péricles, 450 A.C.).
        Eurípedes, o dramaturgo, na mesma época: "Os melhores adornos de uma mulher são o silêncio e a modéstia".
        Um pouco depois, o pai da lógica, Aristóteles, saía-se com esta: "A mulher é por natureza inferior ao homem; deve, pois, obedecer... O escravo não tem vontade; a criança tem, mas incompleta; a mulher tem, mas impotente".
        "A mulher deve aprender em silêncio, com plena submissão. Não consinto que a mulher ensine nem domine o marido, apenas que se mantenha em silêncio" (São Paulo, século I).
        "Os homens são superiores às mulheres, porque Deus lhes outorgou a preeminência sobre elas. Os maridos que sofram desobediência de suas esposas podem castigá-las: deixá-las sozinhas em seus leitos e até mesmo golpeá-las" (Maomé, século VII).
        "Para a boa ordem da família humana, uns devem ser governados por outros mais sábios do que eles; em decorrência, a mulher, mais débil em vigor da alma e força corporal, está sujeita por natureza ao homem, em quem a razão predomina. O pai há de ser mais amado do que a mãe e merecerá maior respeito, porque a sua concepção é ativa, e a mãe simplesmente passiva e material" (São Tomás de Aquino, século XIII).
        "Você não sabe que sou mulher? Quando penso, tenho de falar" (Shakespeare, século XVII).
                "Ainda que o homem e a mulher sejam duas metades, não são nem podem ser iguais. Há uma metade principal e outra metade subalterna: a primeira manda e a segunda obedece” (Molière, século XVII).
        "Uma mulher amavelmente estúpida é uma bendição do céu" (Voltaire, século XVIII).
        "A mulher pode, naturalmente, receber educação, porém, sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e a algumas artes" (Hegel, século XIX).
        "Todas as mulheres acabam sendo como suas mães: essa é a tragédia" (Oscar Wilde; século XIX).
        "... de quem, de fato, aprendemos a volúpia, o afeminamento, a frivolidade total, e outros muitos vícios, senão da mulher? Quem é o responsável por perdermos tantos sentimentos inerentes a nossa natureza, como o valor, a fortaleza, a prudência, a equidade e tantos outros, senão a mulher?" (Tolstoi, século XIX).
        "A mulher parece resolvida a manter a espécie dentro de limites medíocres, a procurar que o homem não chegue nunca a ser semideus" (Ortega y Gasset, século XX).
        Nosso contemporâneo, Elias Canetti, búlgaro, Prêmio Nobel de Literatura de 1981: "Sua confusão era tal que começou a piorar mentalmente, como uma mulher".
        Finalmente, fora da ordem histórica, o epitáfio que o poeta inglês John Donne (século XVII) inscreveu na tumba de sua esposa: "Enquanto você repousa, eu descanso".
        Saltando de século em século, do início da civilização até hoje, por meio desses flashes pinçados ao acaso, vemos uma impropriedade comum no tratamento da mulher, um conjunto de desaforos, literalmente: um conjunto de "fora de lugares". Historiadores, filósofos, teólogos, dramaturgos, políticos, enfim, a inteligência, os que pensam, pensam muito mal a mulher. Razões culturais, sim, não há dúvida, mas o que provoca essa quase desrazão cultural?
         A mulher não existe quer dizer que falta à civilização, à cultura, um nome apropriado à satisfação feminina, à essência da mulher. Quando se tenta classificá-la, como vimos, é um desastre, acaba-se por degradá-la, mudar de grau. É diferente do homem que, este sim, encontra conforto nos braços da cultura e aí dormiria em berço esplêndido se não fosse a mulher acordá-lo de seu sono narcísico e homossexual da civilização, de tempos em tempos.
        O homem adora estar no mundo, na ordem unida; quanto mais todos forem iguais, melhor. O exército, a igreja e as legiões de executivos são bons exemplos da vontade de ser uniforme: todos de farda, de batina, de terno cinza, gravata escura, sapato preto, no máximo, marrom.
        Se você elogia um homem, tipo: “Você é inteligente”, ele fica contente e, se nesse elogio se acrescenta uma comparação com outro homem – como, por exemplo, "Você é inteligente como Churchill", tanto melhor.  Já as mulheres questionam o coletivo e a ordem unida. O elogio a uma mulher há de ser específico. Jamais diga, por exemplo: "Você é sensual como Gloria Estefan, pois se arrisca a ouvir: "O quê? Aquela cubana, de Miami, cantora de salsa?". Melhor restringir o elogio, tal como: “Você é de uma sensualidade jamais vista”.
         Pois bem, seja para homens ou para mulheres, uma análise se propõe a escutar e a inventar um nome para o que se exclui da linguagem; daí dizer, com Lacan, que uma análise deve ser conduzida ao território da inexistência da mulher, além do Édipo, lembrando que "complexo de Édipo" é a maneira da psicanálise conceituar a articulação do sujeito com a cultura.
Ir além do Édipo é forçar a palavra onde normalmente nada poderia ser dito. Lembremos do final do Tractatus logico-philosophicus de Wittgenstein: "Do que não se pode falar, melhor é calar-se". Contrariamente a essa assertiva do filósofo, a psicanálise insiste no mais além, convida ao excesso: onde nada pode ser dito, tal como faz o poeta, há de ser inventado um significante novo.
Inventar um significante novo e se responsabilizar por sua passagem no mundo. Invenção e responsabilidade são dois movimentos fundamentais da clínica do sujeito da pós-modernidade, a segunda clínica de Jacques Lacan. Nesta, onde na primeira se buscava o sentido a mais, aqui o que importa é a consequência. Nada a esperar que uma mulher venha a existir. É por que ela não existe que podemos inventá-la e inventar-nos.
Essa série de impropérios sobre a mulher, que listei, é sinal de um tempo em que a norma era masculina. Muito tempo, dois mil anos. Tempo no qual o amor, para voltar ao tema referido na primeira mesa, se realizava sempre em nome de um bem maior: a família, a religião, a tradição etc. Hoje, no novo amor da pós-modernidade, se estou com alguém é porque eu quero, sem justificativa outra, logo é por minha conta e risco. E não há como degradar uma mulher, posto que ela não existe.
A clínica mudou, o mundo mudou também. Seremos capazes de viver esse mundo da ressonância, não da compreensão, na medida em que suportarmos efetivamente o que Lacan sabia das mulheres, ou seja, que ela não existe. Mais que nunca, nos novos tempos da globalização, a mulher de Lacan é a mulher de hoje.


Não deixem de assistir ao documentário: "Um encontro com Lacan." (disponível no youtube)
É um convite interessante para apreender os conceitos e a história de vida do psicanalista. Seus conceitos, suas convicções e a maneira de refletir sobre a prática. Interessantíssimo! 






O Deus de Lacan 

Márcio Peter de Souza Leite


DEUS PARA FREUD

A religião como neurose obsessiva
A primeira contribuição de Freud à compreensão da religião foi no ensaio Atos obsessivos e práticas religiosas (1907), que trata das similaridades entre a obsessão e a religião.
Neste artigo, Freud conclui: "Poderíamos nos arriscar a considerar a neurose como uma contrapartida patológica da formação de uma religião, e a descrever a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal”.
Para o obsessivo, "qualquer desvio das ações rituais é acompanhado por uma ansiedade intolerável". Para a pessoa religiosa, os atos sagrados do ritual precisam ser satisfeitos. Tais atos são realizados separadamente de outras ações e devem ser levados até o fim.
Embora o ritual religioso seja público e comum, sua significação também está baseada num significado simbólico. A maioria dos crentes executa o ritual sem preocupação com seu significado e, além disso, são guiados por motivos inconscientes...



Deus como substituto do pai

No ensaio Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância (1910), Freud sugere a conexão entre o complexo paternal e a crença em Deus. Em termos biológicos, a religiosidade está relacionada com a prolongada impotência e necessidade de amparo da criança pequena ao se confrontar com as grandes forças da vida. O indivíduo se sente como se sentia na infância e tenta negar seu próprio desalento por meio das forças que protegiam sua infância.
A proteção contra a neurose que a religião concede é explicada: ela liberta os indivíduos do complexo paternal - do qual depende o sentimento de culpa, e o subjuga.
Não há nenhum Deus, nenhuma natureza bondosa. Há, porém, a dor dos desprotegidos e a neurose religiosa dos que acreditam estar protegidos por Deus.
Os seres humanos moldam Deus à imagem do "pai". Deus é "um pai enaltecido”; "uma transfiguração do pai”; "um retrato do pai; "uma sublimação do pai”; "um suplente do pai"; "um substituto do pai"; "uma cópia do pai"; ou Deus "é realmente o pai”.



Totem e Tabu

Em Totem e Tabu (1913), Freud apresentou uma reconstrução histórica da forma como a religião começou, partindo de Darwin. Afirmava que "os homens viviam originalmente em hordas, todos sob o domínio de um único homem poderoso, violento e ciumento" que tinha direitos exclusivos sobre as mulheres do grupo. Nas mentes de seus filhos, o pai assassinado foi transformado no Deus individual de cada crente.
Imediatamente após o assassinato, a imagem do pai foi reprimida. Ela retornou em uma transferência simbólica, como o animal totêmico e por fim, na criação de uma imagem paterna de Deus.



Futuro de uma ilusão

No ensaio O Futuro de uma Ilusão (1927), Freud começa por localizar a religião no contexto da civilização na medida em que esta ajuda os seres humanos a refrear suas ânsias.
A religião fez grandes contribuições à coerção dos instintos e à civilização. A civilização é absolutamente necessária para regular o poder da natureza. A natureza parece tolerante e "nos deixaria fazer o que quiséssemos".
Porém, "ela tem seu próprio método particularmente eficaz de nos coibir. Ela nos destrói - de modo frio, cruel, implacável, conforme nos parece, e provavelmente por meio das mesmas coisas que nos dão satisfação. Foi precisamente por causa desses perigos com os quais a natureza nos ameaça que nos unimos e criamos a civilização [...] para nos defender da natureza".
Os deuses são encarregados de uma tarefa tripla: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os seres humanos com a crueldade do destino e compensá-los por seus sofrimentos. A última tarefa não é fácil de cumprir e leva ao desenvolvimento de sistemas morais para controlar os males da civilização. Freud afirmava que os preceitos morais eram de origem "divina". Desse modo, no decurso do tempo, a ilusão religiosa promete propósitos superiores e um bom desfecho.
Quando o monoteísmo se realizou na história, veio com ele uma renovação do relacionamento com o pai. "Agora que Deus é uma única pessoa, as relações humanas com ele podiam recobrar a intimidade e a intensidade da relação da criança com seu pai”.
Na opinião de Freud, a realidade e a religião têm pouca proximidade no que se refere aos esforços humanos para desvendar os segredos do universo; "o trabalho científico é o único que pode nos levar ao conhecimento da realidade exterior a nós”.



DEUS PARA LACAN



O Deus dos filósofos: Deus como Outro

No Seminário As Psicoses, Lacan fala de um Deus que engana e outro que não engana. Na neurose, Deus garante que o significante funciona; na psicose, o Deus suprido pelo delírio é sem lei.
Lacan assimila Deus ao Outro, lugar da verdade. No Outro a lei dos significantes funciona - Deus é vivenciado como confiável e como insensato, se não funciona.



Deus está morto

No Seminário A Ética da Psicanálise, Lacan afirma que por Deus estar morto, existe lei. Ele reconhece no Deus morto o jogo significante. Em seu Seminário A Transferência, Lacan diz que as religiões tentariam domesticar os deuses que por sua vez pertencem ao real, do qual são um modo de revelação.



Deus é inconsciente

No Seminário Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, Lacan propõem que a verdadeira fórmula do ateísmo não seria que Deus está morto, mas, contestando a fórmula de Dostoievsky - "se Deus está morto tudo está permitido" – para Lacan a fórmula seria: "se Deus está morto nada está permitido". 



Deus e o gozo da mulher

No Seminário Mais, ainda, Lacan diz: "E por que não interpretar uma face do Outro, a face Deus, como sustentada pelo gozo feminino”.
Para ele, Deus não seria nem uma sublimação nem uma idealização do pai.



Deuses: revelação do real

As religiões seriam tentativas de domesticar Deus, de modelar o real com o simbólico das palavras e o imaginário dos corpos. Em lugar de ser uma sublimação ou uma idealização do pai, como supunha Freud, para Lacan as religiões seriam rebaixamentos dos deuses à indignidade do pai.



DEUS EX-SISTE

F. Regnauld (in Deus é inconsciente ) aponta que Lacan delimita um ponto que falta na reflexão filosófica moderna: Deus é existir e não ser. Os filósofos árabes concebem o ser criado como uma essência que não contém em si a razão de sua própria existência. A existência se distingue da essência. Para Deus, existência e essência fazem sempre um.
Na leitura de Lacan, a existência reduz a importância da essência: "Sou o que sou". O ser é uma essência a qual só sua causa confere a existência. "O tetragrámaton impronunciável Yahve" significa a existência necessária. O nome de Deus é mais um eu sou, que um ser ou uma essência.
A existência é dissociada da essência, nem a veicula nem a causa: "Para que algo exista, é necessário que haja um buraco" (Ornicar? Nº 2). Pelo o qual se disse depois que é "suporte do real" ou "o que responde no real” ou "da ordem do real”.
A ex-sistência, é introduzida pela matemática moderna: "É o emprego do escrito µ x. † x)" (Ornicar? Nº 4).
Deus é o não-todo que o cristianismo tem o mérito de distinguir, recusando-se a confundi-lo com a idéia do universo.
Ainda segundo F. Regnauld, a religião teria ensinado Lacan a invocar o Nome-do-pai, representando a Lei, como significante originário. O Deus que interessa à psicanálise é aquele que se revela como Pai, ou como Nome, na tradição judaica-cristã.
Deus é o inominável. Não existe. É "aquilo no qual nenhuma existência lhe está permitida"." (Os Judeus) têm explicado bem o que eles chamam o Pai. O metem num ponto do buraco que não podemos sequer imaginar. “Sou o que sou, isso é um furo, não? Um furo (...), isso engole e logo tem ratos em que isso volta a esculpir. Cuspe que? O nome, o Pai como nome”. ( Ornicar? N° 2)
Deus é a mulher tornada toda "enquanto que a mulher já é não-toda, é porque ela seria o Deus da castração".
“Ela (a barra de negação) diz que não tem Outro que responderia como partenaire - sendo a necessidade toda da espécie humana que haja um Outro do Outro. É aquele ao que se chama geralmente Deus, mas cuja análise revela que é simplesmente A mulher”. 



DEUS E REAL

S. Zizek (O real da ilusão cristã: notas sobre Lacan e a religião) aponta dois aspectos do Real lacaniano: a Coisa primordial e a letra/fórmula sem sentido, como no Real da ciência moderna. A esses dois Zizek acrescenta um terceiro Real, o "Real da ilusão", o real de um puro semblante.
Para Zizek, há três modalidades do Real, pois a tríade IRS reflete-se no interior da ordem do Real de tal modo que se tem o "Real real" (a Coisa aterradora, o objeto primordial), o "Real simbólico" (o significante reduzido a uma fórmula insensata, como as fórmulas da física quântica), e o "Real imaginário" (o "insondável que introduz uma divisão em um objeto ordinário").
Como Lacan diz que os Deuses são da ordem do Real, a Trindade Cristã poderia ser lida como Trindade do Real: Deus, o Pai, é o "Real real" da violenta Coisa primordial; Deus, o Filho, é o "Real imaginário"; o Espírito Santo é o "Real simbólico" da comunidade dos crentes. 



EMPUXO-À-MULHER; DEUS É A MULHER TORNADA TODA

Em De uma questão preliminar... encontra-se esta frase: "Como podemos perceber, ao observar que não é por estar foracluído do pênis, mas por ter que ser o falo, que o paciente estará fadado a se tornar urna mulher”.
Schreber, fadado a se tornar mulher, indica a impossibilidade de uma escolha do sexo pelo psicótico. Para Lacan, há escolha do sujeito em colocar-se do lado homem ou do lado mulher, independentemente do seu sexo anatômico.
A inclinação para a feminização, o empuxo-à-Mulher, marca uma obrigação quanto à sexuação do sujeito.
Para G. Morel (Ambigüedades sexuales) Lacan indica que não há escolha da sexuação na psicose. Por não conseguir ascender ao significante que lhe permitiria colocar-se como homem na repartição dos sexos e por dever ser o falo, o psicótico é levado a situar-se do lado mulher.
Há um empuxo-à-Mulher, independentemente da posição subjetiva do psicótico. O empuxo­à-Mulher é um efeito da foraclusão do Nome-do­Pai.
A homossexualidade masculina (não psicótica) se inscreve nas fórmulas de sexuação do lado homem, enquanto que o empuxo-à-Mulher se inscreve do lado mulher.
Schreber o exemplifica com sua transformação em mulher e sua posição diante de Deus: “como seria bom ser uma mulher copulando e ser a mulher de Deus”.
A identificação ao desejo da mãe está no fundamento da psicose: por não poder ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher que falta aos homens.
A transformação do sujeito em mulher implica que, para poder ser o falo, é preciso renunciar a tê-lo: o que Schreber traduz no imaginário por "não poder mais possuir pênis". Isto é o que está na origem de sua emasculação.
Freud e Lacan mostram a satisfação que leva Schreber a contemplar, vestido de mulher, sua imagem no espelho. É a dimensão do gozo ligado à cópula divina que o conduz a tornar-se digno da fecundação divina.
Nesta figura de Deus que goza dele, evoca-se o gozo do Outro, um gozo não fálico ligado a uma falta da castração.
É este efeito diante do chamado do gozo sem limite, que Lacan chamou de empuxo-à-Mulher, gozo ligado à falta da função fálica.
Escreve Lacan: "Sem dúvida a adivinhação do inconsciente adverte o sujeito, desde muito cedo, de que, na impossibilidade de ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher que falta aos homens" ou, ser a Mulher de Deus”.
A foraclusão do Nome-do-Pai tem como efeito fazer existir A Mulher, a encarnação de um gozo infinito, uma Mulher completa, não marcada pela castração.



O DEUS DE SCHEREBER

Entre as expressões construídas por Lacan se destaca “ mulher não existe” que não significa que o lugar da mulher não exista, senão que dentro da lógica da sexuação, a classe das mulheres é um lugar que permanece vazio.
Disso decorre a formalização lógica da sexuação da mulher como “não toda” que quer dizer que não existe o Universal da mulher. Outra construção emblemática de Lacan diz que “não existe relação sexual”, e se sustenta pela mesma lógica.
Essas figuras reafirmam o divórcio da sexualidade com a noção de sexuação. Este divórcio culmina na pergunta que se encontra no Seminário XX, no capítulo “Deus e o gozo d'A Mulher”: “E porque não interpretar uma face do Outro, a face de Deus, como suportada pelo gozo feminino?”, que encontra resposta com o dito (Lacan sem RSI in Ornicar? Nº 5 pg. 25) “Deus é a mulher tornada toda”.
“Dito que faz da mulher não-toda o Deus da castração” (F.Regnauld in Deus é inconsciente). O que, porém, não faz de Deus um Todo: (Lacan sem RSI in Ornicar? Nº 9 pg. 39:) “não há Outro que responda como parceiro - sendo a necessidade da espécie humana que haja Outro do Outro. É aquele a que se chama geralmente Deus, mas que a análise revela que é simplesmente A mulher”.
Uma das evidências da clínica da psicose é a figura inventada por Lacan “empuxo-à-Mulher” que junta a clínica da psicose, teologia e feminilidade.
O empuxo-à-Mulher é exemplificado por Schreber, para quem a idéia de transformar-se em mulher é um dos primeiros sinais de delírio. A foraclusão do Nome-do-Pai, explicação da causa da psicose na teoria de Lacan, tem como efeito fazer existir A Mulher, a encarnação de um gozo infinito, uma Mulher completa, não marcada pela castração.
Freud, no estudo de Schreber, mostra a satisfação que o lhe proporciona contemplar-se, vestido de mulher, ao ver sua imagem no espelho, que no seu delírio o leva a copular com Deus, fazendo-o digno da fecundação divina.
A este gozo sem limite Lacan chamou de “empuxo-à-Mulher”, explicado como um gozo ligado à falta da função fálica, pois este Deus que goza dele, é o gozo do Outro, um gozo não fálico ligado à falta da castração.
Escreve Lacan: "Sem dúvida a adivinhação do inconsciente adverte o sujeito, desde muito cedo, de que, na impossibilidade de ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher que falta aos homens" ou ser a Mulher de Deus. O “empuxo-à-Mulher” não é só uma interpretação do gozo, em seu caráter de exigência perpétua de satisfação, é uma tendência da pulsão específica da psicose. No texto “ De uma questão preliminar a todo tratamento possível para a psicose ” diz Lacan: "Como podemos perceber, ao observar que não é por estar foracluído do pênis, mas por ter que ser o falo, que o paciente estará fadado a se tornar uma mulher”, o que indica a impossibilidade da escolha do sexo pelo psicótico. A inclinação para a feminização, o “empuxo-à-Mulher”, é uma obrigação na sexuação do psicótico.
Em “Memórias ...”, com sua transformação em mulher e sua posição diante de Deus, Schereber dá um exemplo da feminização no psicótico: "Só a título de uma possibilidade que haja que ter em conta lhe digo: minha emasculação, de qualquer maneira, ainda poderia produzir-se, ao efeito do que uma nova geração saia de meu seio por jogo de uma fecundação divina".
Ainda em “Memórias...” Schereber afirmou: “Por duas vezes já tive órgãos genitais femininos, ainda imperfeitamente desenvolvidos, e experimentei no corpo movimentos de saltos, parecidos às primeiras agitações de um embrião humano. Nervos de Deus, correspondentes a um sêmen masculino, haviam sido projetados em direção a meu corpo por um milagre divino, e desse modo se havia produzido uma fecundação”.
Lacan retirou o termo "assintótica” de Freud, e expressa com esta metáfora a interminável transformação de Schereber em mulher. Lacan formalizou a psicose de Schreber como similar à função hiperbólica onde a feminização do sujeito se inscreve ao longo das assintóticas, apontando ao infinito. A expressão "empuxo-à-Mulher”, indica esse aspecto inconclusivo do trabalho delirante.
Schereber se coloca como objeto do gozo do Outro, pois o empuxo-à-Mulher exige a confrontação com as exigências de um Deus tirânico, o que justifica outros sintomas como a tentação suicida, a cadaverização do corpo, o prejuízo do sentimento íntimo da vida, a perda da identidade viril, as tentativas de automutilação, e a demanda de operação cirúrgica.
Para G. Morel (Ambiguedades sexuales), Lacan com o “empuxo-à-Mulher” indica que não há escolha da sexuação na psicose. Por não conseguir ascender ao significante que lhe permitiria colocar-se como homem na repartição dos sexos e por dever ser o falo, o psicótico é levado a se situar do lado mulher. Há um empuxo-à-Mulher, independentemente da posição subjetiva do psicótico, pois empuxo-à-Mulher é um efeito da foraclusão do Nome-do-Pai.
A homossexualidade masculina (não psicótica) se inscreve nas fórmulas de sexuação do lado homem, enquanto que o empuxo-à-Mulher se inscreve do lado mulher. A identificação ao desejo da mãe está no fundamento da psicose: por não poder ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher que falta aos homens.
A transformação do sujeito em mulher implica, para poder ser o falo, renunciar a tê-lo: o que Schreber traduz no imaginário por "não poder mais possuir pênis", fato que está na origem de sua emasculação.

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A depressão como paixão da alma (ou dor de existir)
Márcio Peter de Souza Leite
A depressão na psiquiatria
No contexto da psicopatologia existem muitos usos diferentes para a palavra depressão tendo esta uma extensa sinonímia: transtornos de humor, melancolia, disforia, distimia, ciclotimia, unipolar, bipolar, personalidade depressiva, neurastenia, fadiga crônica, fibromialgia, esgotamento.
A partir de 1980, com a introdução do DSM-III, que é a terceira versão de uma classificação dos distúrbios mentais proposta pela American Psychiatric Association, a classificação das doenças psiquiátricas recebeu uma nova formalização que se propunha como ateórica, ahistórica e adoutrinária. Nesta classificação o princípio fundamental seria o de não se fazer referências a teorias anteriores sobre a etiologia ou patogenia das doenças mentais que não estivessem de acordo com o critério do DSM-III, classificação esta que pretendia ser composta unicamente por diagnósticos descritivos, vistos como totalmente comunicáveis e empiricamente verificáveis.
O DSM-III seria um catálogo que pretenderia esgotar todas as formas possíveis do enfermar e apareceria como uma língua nova produzida por um novo modelo, que se poderia chamar de clínica da medicação.
Nascido da psiquiatria universitária norte-americana conhecida como Escola de St. Louis, o DSM-III teria por modelo a resposta padrão à administração de uma substância química específica. Este procedimento denominado de critério operacional preencheria a ausência de signos patognomônicos e de exames de laboratório em psiquiatria, e pretenderia medicalizar a psiquiatria retirando-a de uma influência filosófica a que estaria submetida anteriormente, principalmente na sua referência a Jasper e a fenomenologia.
A partir dos critérios do DSM-III entende-se por depressão uma reunião de sintomas existentes durante um determinado período de tempo, que caracterizariam um conjunto a que se dá o nome de síndrome depressiva, sem, no entanto privilegiar nenhum desses sintomas, e nem interrelacioná-los.
O agrupamento de sintomas, responderia ao único fato em comum a eles, que seria a resposta à administração de uma mesma substância química (imipramina), e seu critério de ordenação seria o estatístico.
Os sintomas são: humor depressivo, irritabilidade, culpa, anedonia, fadiga, pensamento lentificado, agitação psicomotora, insônia, hipersonia, anorexia, bulimia, perda de peso, ganho de peso, pessimismo, ideação suicida.
Lacan articulou a relação do universal dos diversos tipos de sintoma com o particular de cada sujeito, através da idéia de um "envoltório formal do sintoma". Na Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos, Lacan, referindo-se à existência dos diferentes tipos clínicos diz (cito Lacan): "que os tipos clínicos resultem da estrutura eis o que já se pode escrever, ainda que não sem hesitação ...”.
O que define o diagnóstico em psicanálise não é a conduta, o que define o diagnóstico em psicanálise é a posição subjetiva frente ao sintoma, e isso faz com que ele não possa ser separado da localização subjetiva, ou seja, na experiência analítica, ao tipo do sintoma que o analisante apresenta, deve-se acrescentar a posição que este assume frente ao seu sintoma, o que é feito a partir do seu dizer e não dos seus ditos.
Em psicanálise trata-se, portanto, de distinguir entre o dito e uma posição frente ao dito, sendo esta posição frente ao dito o próprio sujeito.
Desta forma, a especificidade de uma clínica psicanalítica que não dependesse da psiquiatria, se deveria ao fato dela não situar o diagnóstico no sintoma, mas sim onde nesse sintoma, há uma fantasia que o determina. Com esse procedimento desloca-se uma clínica centrada unicamente nas formas do sintoma, para uma outra onde se privilegiaria as modalidades da posição do sujeito na fantasia.
Se na psiquiatria o diagnóstico se refere unicamente à descrição de fenômenos pensados como estaticamente invariantes, a psicanálise sem negar a existência destes fenômenos, vai além da sua descrição e indaga sobre sua estrutura de linguagem e responde a isso com formalizações que ampliam o campo da psiquiatria.


Depressão para Freud: O modelo do luto
Freud tomou da psiquiatria corrente a ordenação de um conjunto de fenômenos, que seriam a tristeza, o desinteresse sexual, a desmotivação, as autoacusações, as idéias de morte que configuravam o quadro depressivo e, a exemplo do que fizera com os sintomas da neurose, articulou-os entre si, procurando uma relação causal entre eles.
Para Freud a angústia seria o sintoma fundamental das neuroses. As neuroses seriam decorrentes das várias maneiras de o sujeito evitar a angústia, constituindo os vários estilos defensivos, que seriam o fundamento dos agrupamentos das neuroses. Corresponderiam, segundo o ensino de Lacan, às várias possibilidades de o sujeito negar a falta no Outro.
Com o grupo de sintomas que naquele momento significava a depressão, Freud ordenou a sintomatologia em torno de um centro, de um fundamento que organizaria as demais manifestações depressivas entre si, e que para Freud, foram articuladas em torno da sua principal evidência, a auto-acusação.
Para compreender as razões das manifestações depressivas e encontrar o seu fundamento defensivo, Freud recorreu ao paralelo clínico com o luto, pois, no luto o sujeito apresentaria expressões semelhantes aos sintomas da depressão.
Nos primeiros textos, Freud frisou a diferença entre depressão e melancolia. Desde 1892 ele utilizou a palavra depressão para descrever uma constelação sintomática a que ele chamou de depressão periódica branda.
Em 1893 Freud diferenciava a depressão da melancolia e afirmava (cito Freud): “essa depressão (a depressão periódica branda) em contraste com a melancolia propriamente dita, quase sempre tem uma ligação aparentemente racional com o trauma psíquico. Este, porém, é apenas uma causa provocadora. Ademais, a depressão periódica branda ocorre sem anestesia psíquica, que é a característica da melancolia”. (Rascunho B, pág. 43).
Em 1917, no texto, Luto e Melancolia, Freud definiu a melancolia como um (cito Freud): “... desânimo profundamente penoso, a cessação do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade e uma diminuição dos sentimentos de autoestima aponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de auto-punição.”
Freud colocou a ênfase do quadro melancólico na dor psíquica que este refere, e que ele caracterizou como o estado clínico da melancolia.
O que causa a dor psíquica?
A falta de objeto seja por uma perda real ou por uma falta imaginária. Freud, à sua definição de melancolia que já citamos, acrescentou (cito Freud): “Este quadro se nos faz mais inteligível quando refletimos que o luto mostra também estes caracteres, à exceção de um só: a perturbação do amor-próprio”.
Ou seja, tanto no luto como na melancolia, encontramos aflição e dor, perda do interesse pelo mundo e pelas coisas, perda da capacidade de escolher um objeto novo, porém o que diferencia o luto da melancolia, é que no luto não há a perda da auto-estima.
Para Freud, na melancolia, não seria o mundo que estaria empobrecido, mas sim o próprio Eu e, como no luto, também na melancolia teria havido uma perda, porém não se conseguiria distinguir claramente o que o sujeito perdeu, e, tampouco ele saberia dizê-lo.
Uma vez reformulada a questão da angústia, em 1925, num apêndice do texto Inibição Sintonia e Angústia, que aparece com o título de Angústia, Dor e Tristeza, Freud concluiu que (cito Freud): “...a dor seria a verdadeira reação à perda de objeto, e a angústia seria a verdadeira reação ante o perigo que ocasiona a perda de objeto”.


A depressão para Lacan: Paixão da alma
Segundo Eric Laurent, existe uma teoria da melancolia no ensino de Lacan, estabelecida já em 1938, e que evoluiu durante toda sua obra.
Em 1938, no texto Complexos familiares, Lacan se referiu à psicose maníaco-depressiva como um transtorno do narcisismo, na medida em que ela viria remediar a insuficiência específica da vitalidade humana.
Em 1946, a ênfase foi posta numa referência direta à pulsão de morte, e Lacan, neste momento, correlacionou o suicídio melancólico com o assassinato imotivado do paranóico.
A partir de 1953, com a introdução da noção do inconsciente estruturado como uma linguagem, a melancolia foi pensada como sacrifício suicida, ou seja, na melancolia o sujeito se nomeia, ao mesmo tempo em que se eterniza e, com isto, Lacan deixou de pensar a melancolia a partir do narcisismo para pensá-la a partir dos efeitos do parasitismo da linguagem no sujeito, estando o sacrifício narcisista subordinado ao sacrifício simbólico.
A partir de 1963, ao relacionar narcisismo e objeto (Seminário X), Lacan produziu um novo referencial para a compreensão da melancolia. Neste momento do seu ensino, Lacan considerou que o sujeito melancólico, pelo atravessamento da imagem que efetuaria no impulso suicida, poderia ser apresentado como o exemplo do impulso de se reunir com o próprio ser. Quer dizer, na melancolia, através do ato suicida, o sujeito se encontra com o objeto a.
A mania será pensada como o contrário da melancolia, ou seja, ela ocorre quando o sujeito não encontra o objeto a, quando nada o amarra à cadeia significante. A partir dessa visão, a mania e a melancolia seriam maneiras diferentes de separar o desejo da causa.
Lacan discordava da leitura dominante na psiquiatria da época que era feita desde o referencial jasperiano e que considerava a depressão a resposta esperada de alguém que perdeu algo. A tristeza estaria em conexão compreensiva com a perda sofrida.
Lacan com a noção de estrutura cínica questiona a assimilação da figura nosológica da neurose depressiva e discorda também da depressão compreendida no sentido jasperiano como referida tristeza, questionando seus traços distintivos negativos: a insatisfação a impotência, a inapetência, a inércia.
Impotência não é tristeza diz Lacan:
“A noção de compreensão tem uma significação muito nítida. É um móbil do qual Jaspers fez com o nome de relação de compreensão, o pivô de toda a sua psicopatologia dita geral. Isso consiste em pensar que há coisas que são evidentes, que, por exemplo, quando alguém está triste é porque não tem tudo o que seu coração deseja. Nada mais falso - há pessoas que tem tudo o que seu coração deseja e que ainda assim são tristes. A tristeza é uma paixão de natureza inteiramente outra”. (55-56)
Em 1973 em Televisão o sentimento depressivo, foi pensado por Lacan pelo viés freudiano da dor psíquica, variando desde uma referência ao budismo através da fórmula da "dor de existir", quanto da elevação da depressão à condição de um afeto normal, que remete à falha da estrutura que obriga o sujeito ao dever de ser "todo" para o ideal, e o dever de "bem dizer" sua relação com o gozo .
Lacan tratou a depressão como paixão da alma, tomando como referência Platão, Aristóteles e São Tomás, e com isso situou-a no campo da Ética.
Lacan definiu então a tristeza como covardia moral, como falta moral, como pecado (no sentido spinoziano), o que quer dizer, em termos analíticos, que se trata de uma decisão sobre a perda.
Do encontro do sujeito com o Outro haveria uma divisão do sujeito e clivagem do Outro, mais a produção de um resto que é o objeto a. Este resto, instituinte do sujeito, seria a causa do desejo. O desejo então não estaria prometido à completude, pois ele seria sempre decorrente de uma perda, na qual o sujeito se funda.
Seria este o luto originário?
A busca desta completude perdida Lacan chamou de Paixão do ser, que são paixões da relação com o Outro. A falta a ser determina a paixão da busca de completude no Outro. As paixões dão consistência ao Outro: o ideal no amor, o apagamento no ódio e o saber na ignorância.
Na seqüência do ensino de Lacan houve uma substituição das paixões do ser pelas paixões da alma, que são principalmente a tristeza e a mania.
Na orientação lacaniana distinguem-se as emoções, que são de registro animal, dos afetos, que são do registro do sujeito, e essas das paixões.
A Ética da psicanálise é a Ética do Bem dizer que consiste em se aproximar de um saber que não se pode dizer, por isto a tristeza. A tristeza é um saber falido do qual o sujeito é responsável.
A psicanálise não é um materialismo do significante, é uma Ética. A estrutura descreve uma combinatória, a Ética implica uma decisão.
Isto quer dizer que na experiência analítica não se trata só de mecanismos estruturais, trata-se de escolhas subjetivas que tem o modelo da escolha forçada.
Esta posição define a direção do tratamento na depressão. Não a considera como efeito de um distúrbio neurobiológico e implica-se o analisante na responsabilidade da perda.
Trata-se, como em todas análises, de terminar com os efeitos de fascinação da palavra para fazer surgir um dizer que deixe “a coisa” falar, e inventar um saber do que não se pode dizer.


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O amor na teoria de Jacques Lacan



O gozo pleno, oriundo da mãe, é interditado pelo pai. A partir daí, o homem vive uma busca constante por sanar sua incompletude. Cada mulher é uma tentativa, sempre fracassada, de saciar seu desejo primordial.
Walter Cezar Addeo

Tão célebre quanto o desabafo de Freud quando perguntou exasperado - "afinal, o que querem as mulheres?" (e ele realmente não sabia) -, foram duas frases de Jacques Lacan ao enunciar que "a relação sexual não existe" e, finalmente, que "a mulher não existe". Dois paradoxos, aparentemente, uma vez que a humanidade se mantém por intermédio do ato sexual e as mulheres representam metade da espécie humana.
Para esclarecer essa questão, teremos de refazer alguns percursos da teoria lacaniana e colocar alguns personagens ficcionais em seu divã a título de ilustração. Em seu seminário intitulado A transferência, Jacques Lacan (1901-1981) fará uma belíssima exegese do texto conhecido como O banquete, em que Platão nos apresenta Sócrates falando sobre o amor, sobre o desejo e onde encontramos a gênese de um dos conceitos lacanianos fundamentais para sua teoria - "o objeto a" - este estranho dispositivo que arrastará o desejo humano para uma deriva sem fim, mesmo tentando ancorá-lo em soluções parciais.
Do que trata esse diálogo platônico? Primeiramente, ele nos é contado em terceira mão. Platão não estava presente quando os fatos aconteceram. Ele ouve o relato da boca de Apolodoro que, por sua vez, o ouvira de Aristodemo, o qual participara efetivamente do simpósio oferecido por Agatão. Nesse simpósio, falaram Pausânias, Eriximaco, Aristófanes, o próprio anfitrião Agatão e finalmente Sócrates.
Todos falam sobre o amor que é o tema escolhido para aquela noite. Alcibíades faz uma entrada tardia e coloca Sócrates numa situação delicada ao revelar a relação amorosa e de admiração que ambos teriam um pelo outro. Lacan irá analisar cada uma dessas falas, privilegiando o diálogo final entre Sócrates e Alcibíades que nos apresentará o termo "Agalma", uma das primeiras formulações do que será futuramente o "objeto a".
Interessanos apenas uma em especial. A fala de Sócrates, que na verdade, não seria propriamente dele, pois ele estaria apenas relatando o que ouvira de Diotima de Mantinéa, ou seja, apesar de não estar presente no banquete, ela fala pela boca de Sócrates. Lacan defenderá a tese de que é Sócrates quem realmente fala, por meio de sua "alma feminina" e que usa esse subterfúgio, inclusive, para não constranger seu anfitrião Agatão, cujas teses serão desconsideradas. E o que fala Diotima de Mantinéa por meio de Sócrates? Um relato psicológico sobre a gênese do amor que espanta pela argúcia e modernidade, ao ponto de Lacan o recuperar por completo em sua clínica. Vejamos o relato

"A libertação do desejo conduz à paz interior" 
LAO-TSÉ
Diotima conta que Eros, o deus do amor, foi gerado no dia em que nasceu Afrodite, quando os deuses participavam de um banquete. Entre eles estava Poros, filho de Métis, também chamado de "o astucioso", "aquele que tem expediente", que, completamente embriagado com néctar, entrou no jardim de Zeus e adormeceu.
Este nome, etimologicamente, também remete à ideia de uma abertura, uma passagem, uma travessia, enfim, um furo, um vazio. Terminado o jantar dos deuses e apesar de não ter sido convidada, aparece Penia que veio mendigar restos do festim.
Penia é a personificação da pobreza, da carência. Etimologicamente provém de um verbo que significa "afligir-se", "trabalhar por necessidade", "esforçar-se com" e posteriormente também agrega os sentidos de "estar em dificuldade", "ser pobre". Penia em sua miséria ao ver Poros embriagado e adormecido desejou ter um filho com ele. Deitou-se ao seu lado e concebeu Eros.
Eros trará consigo as marcas dessa dupla gênese. De sua mãe Penia, cuja pobreza a define como eterna mendicante, ele herdará uma falta congênita e se esforçará sempre para obter aquilo que não tem, ou seja, vive sob o emblema de uma carência jamais preenchida, mas que se esforçará por compensar.
Para isso herdou de seu pai Poros a astúcia e o expediente necessários para tentar conseguir aquilo que não possui.
Eros, o deus do amor, nasceu de Penia (carência, pobreza) e Poros (astúcia). Da dialética entre carência e astúcia move-se o desejo.
Dessa dialética entre carência e astúcia movese o desejo, agita-se Eros infinitamente. É a matriz lógica, remota, desse futuro "objeto a" teorizado por Lacan, essa letra que procura e está sempre no lugar de um "outro" que nunca é alcançado.1 Em Lacan, essa incompletude e carência universalizam-se, atingindo agora toda e qualquer pulsão do desejo.
Mas como se verá na aventura da Psicanálise, toda atualização do desejo será sempre sob uma forma parcial, compensatória para apoderar-se daquilo que Lacan chamou de "o Nome-do-Pai", essa nova fórmula interpretativa do complexo de Édipo levada a efeito pela revolução lacaniana que, expandindo seu antigo sentido freudiano, integrou homens e mulheres em uma mesma aventura psíquica.
Para as referências etimológicas foi utilizado o Dicionário Mítico-Etimológico, vol. II de Junito Brandão, Edit. Vozes, Petrópolis, 1992.
Para entendermos um pouco melhor essa novidade teórica da clínica lacaniana, lembremos que esse símbolo "a", constante no termo "objeto a" não se refere à primeira letra do alfabeto, mas à primeira letra da palavra francesa "autre" (outro, em português) e que essa letra "a" em minúsculo qualifica, portanto, sempre uma alteridade, alguma coisa que está para além do sujeito desejante e que ele quer para si.
Assim, quando esse "objeto a" se instala como função psíquica compensatória, temos de procurar responder sempre quem é esse "outro" que se coloca no lugar do meu desejo. Lacan começaria a pensar este conceito a partir da leitura de Luto e Melancolia de Freud. Juan-David Nasio observa com bastante acuidade que neste artigo, "ao se referir à pessoa que foi perdida e de quem se faz o luto, Freud escreve a palavra "objeto", e não "pessoa".
Freud, portanto, já fornece a Lacan uma base para responder à pergunta "quem é o outro?" e construir seu conceito de objeto a."
Note-se que nesta gênese freudiana do conceito lacaniano já se inscreve a ideia de uma perda, de alguma coisa que não existe mais, de um fantasma do qual temos de fazer o luto para nos libertarmos de sua lembrança.
Para o homem é o trauma da castração, da perda simbólica do falo, da necessidade de ter acesso ao Nome-do-Pai, essa instância de poder que precisará ser recuperada de alguma forma. Portanto instaura-se aqui uma carência que só poderá ser preenchida parcialmente ou transformada em narrativa na clínica psicanalítica, quando, então, no processo de transferência, o analista assume ser o "objeto a", tornando-se, ele mesmo, este "outro do desejo" do analisando para que ele o supere.
2 NASIO, J.D. - Cinco lições sobre a Teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p. 92
Inconscieiente
Avancemos mais de 2 mil anos da cena desse Banquete para encontrar Jacques Lacan num dos seus seminários, denominado O desejo e sua interpretação, em que ele inicia a conceitualização do que chamou inicialmente de "pequeno objeto a", tema que além de ser um desdobramento do conceito de "o Nome-do-Pai" remeteu o inconsciente para uma leitura definitivamente linguística.
Lacan entenderá o inconsciente radicalmente estruturado como uma linguagem, e isso terá consequências sérias tanto na prática psicanalítica quanto na teoria linguística, abrindo duas frentes de batalha. Por corresponder a um inconsciente entendido como falta, a linguagem, ela mesma, será para sempre incompleta em sua significação. Entre a nomeação das coisas e sua significação haverá sempre uma sutura mal feita.
Assim, nenhum significante comportará um significado completo e irredutível, mas deslizará constantemente por uma cadeia de significantes arbitrários, sem nunca ter fim. Só uma atitude comandada pela necessidade pragmática de comunicação é que pode interromper, barrar esse sentido sempre em aberto do significante e fazê-lo cristalizar-se por algum tempo. Mas o desejo sempre conseguirá fazer que os significantes se movam e falará através das fissuras deixadas descobertas.
Essa visada linguística do inconsciente, iniciada por Lacan quando de suas leituras da obra de Ferdinand de Saussure, irá encontrar sua solução madura na leitura que fará de Roman Jakobson. Nesse momento, introduz em sua teoria dois elementos novos: a metáfora e a metonímia.
Elas serão para Lacan as duas leis fundamentais do inconsciente. Deslocamentos (metonímias) e condensações (metáforas) responderão também pela fala do inconsciente, onde a estrutura metonímica de justaposições e acoplamentos será o ponto de referência para caracterizar a estrutura do desejo.
No processo metonímico temos um deslocamento em que uma parte é tomada pelo todo, da mesma forma que no "objeto a" alguma coisa toma o lugar, parcialmente, do desejo interditado ao sujeito. Igualmente, na metáfora, alguma coisa é substituída em seu sentido por outra, o que se pode flagrar facilmente na narrativa dos sonhos, sempre metafóricos por excelência.
Desde o início, portanto, é inerente ao conceito lacaniano de "objeto a" a ideia de que ele também desloca alguma coisa, tentando compensar uma "falta-aser (conforme o léxico lacaniano), colocando no lugar algo sobre o qual o sujeito pode falar. Assim, o sujeito desejante desenvolverá certa astúcia ao tentar aprisionar brevemente esse astuto objeto "a" em alguma forma transitória de satisfação, de gozo.
Uma astúcia destinada sempre a ser uma compensação e que instaura apenas uma satisfação parcial, metonímica, diante do desejo. Portanto, uma relação de substituição que transformará todo "objeto a", escolhido pelo sujeito desejante, num fantasma. E a maior fantasmagoria eleita pelo masculino será o do feminino, visado como objeto de gozo total, impossível de ser completado.
A maior fantasmagoria eleita pelo masculino será o do feminino, visado como objeto de gozo total, impossível de ser completado
Este gozo total pertenceria ao desejo pela mãe, interditado e castrado simbolicamente na estruturação do Édipo quando a criança desiste da mãe, da relação incestuosa com essa mulher que "pertence" ao Pai e que lhe é interditada pela Lei do Pai. Essa instância de interdição - o tabu do incesto - é introjetada simbolicamente pela criança como uma forma de castração e, imediatamente, na tese lacaniana, esse interdito que tem raízes antropológicas passa a ser denominado de "O Nome-do-Pai".
Ao introjetar essa Lei do Pai que proíbe o incesto com a mãe - seu objeto primário de desejo, de gozo total - a criança agora se inscreve na ordem cultural que emana desse Nome-do-Pai. Leis normativas que o definirão como um ser social que aceitou essa castração para se inserir na ordem da cultura e a quem faltará para sempre esse falo simbólico ao qual, miticamente, todas as fêmeas pertenceram um dia e que, agora, pertence ao pai que lhe interdita e o castra com relação à mãe e cujas funções ele procurará recuperar parcialmente por meio de "objetos a" metonímicos.
O falo neste contexto será sempre o significante de uma falta. Nesse sentido é que se pode entender a frase de Lacan quando diz que a "relação sexual não existe". Realmente, como "relação total", como recuperação de um "gozo total", esta relação estará para sempre interditada ao masculino. Aqui a mulher se apresenta, radicalmente, como um "inteiramente outro" para o homem ao qual ele não teria acesso, uma vez que ela não participa dessa síndrome da castração original, não precisou introjetar uma perda simbólica abissal para se constituir como sujeito.
Homens e mulheres realmente não são iguais na relação sexual. Portanto, é essa possibilidade de relação simétrica que é declarada inexistente. Afinal, como já se disse, "o Édipo produz o homem, não produz a mulher".3
3 SOLER, Colette - O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 17
A Mulher Não Existe
É famosa a apropriação de Lacan do conto de Edgar Allan Poe intitulado A carta roubada, em que ele mostra que assim como o sentido último dos significantes nunca é alcançado, esta carta roubada também tem vários destinatários e nenhum; seu conteúdo nunca pode ser apropriado inteiramente, mantendose apenas como uma potencialidade de sentido e, no caso do conto de Poe, uma potencialidade de poder para quem a possui. Metáfora certeira para a palavra que sempre cerca seu sentido, mas nunca o alcança
Por mais visível e audível que as palavras sejam, elas nunca podem ser decifradas totalmente - seu significado sempre desliza e escapa - da mesma maneira que a carta roubada, no conto de Poe, desliza continuadamente por vários possuidores.
Mesmo estando perfeitamente visível e disponível em cima da lareira, nunca é vista pelos que a querem encontrar. Bem, a mulher e o desejo do homem pela mulher teriam também essa característica. Por mais próxima que a mulher esteja do homem, ela é sempre invisível para ele, o que fará Lacan formular a frase paradoxal de que a mulher não existe. Frase aparentemente absurda e que causou polêmica.
Como dizer isso se o homem faz sexo com uma mulher desde sempre? Lacan dirá que os homens, na verdade, fazem sexo com todas as mulheres e não com uma em especial, repetindo no seu inconsciente o tempo da horda primitiva, em que todas as mulheres pertenciam a um único Pai mítico, dono do falo.
A mulher como individualidade lhe escapa sempre. Na verdade, ela, como todo objeto de desejo, pertence à esfera desse "objeto a", parcial, metonímico por definição, mas que consegue ancorar a pulsão do desejo por algum tempo. A mulher real e individual presente no ato sexual representa, portanto, apenas uma possibilidade nessa série infinita que alucina o masculino.
O filme Closer, do diretor Mike Nichols (do roteiro baseado na peça teatral homônima de Patrick Marber) pode ser utilizado como exemplo. Este texto parece ter um segundo roteirista oculto, o próprio Lacan. O título na versão brasileira recebeu um acréscimo, tornou-se Closer - Perto demais. Lacan concordaria com o acréscimo. Perto demais, a mulher torna-se ainda mais inexistente para o masculino.
Visível e oculto
Inicialmente, o roteiro cria profissões emblemáticas que já definem o que acontecerá com o relacionamento dos amantes. Dan é um jornalista encarregado da seção de obituários. Ele mesmo conta como os obituários são redigidos para esconderem sempre a pessoa real.
O que de fato as pessoas foram na vida não importa nos obituários. Mas sim, a visão edulcorada e elegante em que todos se transformam em pais amantíssimos, esposos fiéis e profissionais competentes, mesmo que tenham sido sempre o oposto disso tudo.
Ou seja, nem mesmo na morte, revelamos o que somos de fato. O falso obituário dos jornais incumbe-se de manter o distanciamento necessário da pessoa real. O obituário, que deveria revelar finalmente a pessoa, a mantém, agora, definitivamente distante.
Anna, por sua vez, é fotógrafa especializada em retratos de desconhecidos que ela fotografa em grandes closes. Rostos anônimos, mas ela os exibe em grande proximidade, em grandes ampliações. Mesmo com tal exposição ampliada, eles continuam desconhecidos. É uma falsa aproximação. Rostos próximos demais. Tão desconhecidos quanto os das mulheres quando elas se apresentam para os homens que pensam que as vêm por inteiro e acreditam saber o que elas são e o que estão vendo.
Larry é médico dermatologista. Perto demais do corpo das pessoas. Próximo da pele. Mas nunca além. O dermatologista se detém na epiderme das pessoas, nunca ultrapassando esse limite externo do corpo. Nunca penetrando realmente no âmago do paciente. Sempre na epiderme, nesta exterioridade que nos delimita do exterior. Assim será também em seus relacionamentos com o feminino. Nunca indo além da sexualidade explícita. Não é à toa que será ele quem exigirá tudo da stripper. Visão total. Mesmo assim, ele não conseguirá ir além da epiderme ginecológica da mulher.
Jane, por sua vez, é a stripper que se dá totalmente ao olhar do masculino. Olhar que nunca consegue ir além do seu corpo em exibição, da sua epiderme. Pertos demais do seu corpo nu, os olhares masculinos estão sempre longe demais dela como mulher. Ela é a que encerra, em sua profissão, o paradoxo dessas relações íntimas que estão sempre à distância. Ela é um "objeto a" por excelência, pois oferece seu corpo como objeto parcial de um desejo nunca realizado.
Neste jogo de espelhos falsos, de miradas falsas, ela é um equívoco desde o início do filme. Jane, desde seu primeiro encontro com Dan, usa um nome falso - Alice. O relacionamento dos dois já inicia com uma Alice que não existe. É emblemático que a primeira frase que Alice dirige a Dan, logo no início do filme, seja "Olá estranho!".
O filme será justamente sobre esse eterno estranhamento entre homens e mulheres dentro da cultura. A relação deles será, portanto, um labirinto de aproximações falsas. Eles estão obcecados em fazer sexo com elas e saber dos detalhes eróticos quando elas os traem. Claro, tudo temperado com o pretexto de que as amam acima de tudo. Isso não impede que eles a traiam.
E vice-versa. Mas o que seria do erotismo deles se não fossem as traições que eles pressentem e de certa forma, inconscientemente, estimulam? Como Lacan nos observou, há sempre um terceiro envolvido em toda relação sexual, que pertence ao imaginário masculino e que é justamente essa fantasmagoria da mulher e sua sexualidade inesgotável. Elas sabem que eles são assim mesmo e respondem suas intermináveis perguntas com todos os detalhes eróticos que eles exigem. Eles, entretanto, nunca sabem exatamente o que elas são e se o que dizem é verdadeiro. Como Lacan dissera, elas não existem para eles como individualidade
O homem está preso à fantasia original de desejo por todas as mulheres e por aquela mãe interditada que pertenceu ao Pai mítico
Nesse sentido, é lapidar a cena em que os dois homens acessam a internet, numa dessas salas de encontros, e um deles finge que é uma mulher. O namoro virtual logo descamba para uma espécie de sexo virtual. O que prova que para o homem basta que ele tenha uma projeção de mulher em sua mente para que tudo funcione e a relação sexual se faça (daí essa relação, no fundo, ser inexistente).
Afinal, tudo não passa mesmo de uma fantasmagoria masculina. Portanto, tanto faz ser uma falsa mulher virtual com quem ele conversa na internet ou uma mulher real que ele fantasia. A mulher real não existe nunca para o homem. Está para além de suas possibilidades, uma vez que ele está preso à fantasia original de desejo por todas as mulheres e por aquela mãe interditada que pertenceu ao Pai mítico. Relaciona-se, então, com sucedâneos simbólicos incompletos desse poder do pai. Há, portanto, uma impossibilidade ontológica de que esses dois gêneros possam se encontrar realmente.
Daí a necessidade de uma retórica amorosa para que eles criem um simulacro de relacionamento. Mas quando esses diálogos se dão no filme, surgem numa chave cínico-irônico-amorosa paradoxal que corta cirurgicamente a velha retórica amorosa com que os filmes românticos costumam anestesiar suas plateias. Revelam magistralmente o que realmente está por debaixo dos arrulhos amorosos dos casais enamorados.
O masculino estará sempre atrás de um fantasma idealizado de mulher. Do feminino que só existe em sua carência e vazio. Elas jamais poderão preencher isso
Talvez, a cena em que mais se revele essa fissura entre homem e mulher seja a do clube noturno onde Alice/Jane faz strip-tease. A figura da stripper é simbolicamente carregada.
Essa mulher que se despe completamente para os olhares masculinos estaria, portanto, tão próxima fisicamente dele que, finalmente, ele poderia dela se apropriar inteiramente. Entretanto, nesse momento de aproximação máxima é, justamente, quando ela fica mais distante, constituindo-se em simulacro inatingível de desejo e de fantasia.
No clube, Larry, um dos lados desse quarteto improvável, pede para vê-la totalmente nua e ainda paga para que ela exiba suas partes íntimas, da maneira mais crua. Aproximação visual máxima do corpo feminino que, entretanto, não preenche as frustrações e desejos do homem.
Ele também paga alto para que ela lhe diga seu nome verdadeiro. Ela o diz. Mas ele pensa que ela mente. E ela não esclarece a confusão dele. Não é preciso. Ele nunca saberá mesmo o que as mulheres são, qual o nome certo que elas têm. Tanto faz, portanto, seu nome verdadeiro que ele pensa ser falso.
O seu corpo perfeito de stripper, apesar de cruamente nu e real, também é um velamento, uma alegoria de todas as mulheres possíveis. E não adianta que ele a veja assim tão de perto e despida. Para ele, a mulher como individualidade, como outro sujeito também ferido pela castração narcisística, sempre estará para longe de suas possibilidades. Aqui a visibilidade total da mulher é índice do seu total ocultamento, o que nos remete novamente à símile da "carta roubada" do conto de Poe, que também está oculta justamente por estar totalmente visível sobre a lareira da sala
Nuas e perto demais, elas, paradoxalmente, são sempre invisíveis. O masculino estará sempre atrás de um fantasma idealizado de mulher. Do feminino que só existe em sua carência e vazio. Elas jamais poderão preencher isso. Só poderiam fazê-lo se concordassem em ser o objeto fantasmal deles, encarnando para o homem a significação da castração e, assim, transformarem-se num falo compensatório. E elas sabem disso.
Por isso mesmo, fingem que são as mulheres que eles pensam que vêm e amam. Que uma delas, Anna, introjete essa culpa e impossibilidade de relacionamento real, apenas a faz prisioneira total dessa carência masculina que na verdade não concerne às mulheres. De certo modo, ela é infeliz porque eles são infelizes com elas e estão a se relacionar sempre com mulheres inexistentes.
Portanto, a frase de Lacan, aparentemente absurda, encontra em Closer sua ilustração. A mulher realmente não existe. É a demonstração dessa frase que pareceu insultuosa às feministas, mas que, na verdade, revelava o jogo de espelhos falsos na relação do masculino com o feminino. Ambos preenchem momentaneamente e por pouco tempo o vago fantasma que o "objeto a" tenta compensar.
Desses fantasmas é que cada um - homem e mulher - estão enamorados por algum tempo. Não é à toa, portanto, que o filme comece e termine com uma mulher nas ruas envolvida pelos olhares masculinos que passam. Esses olhares fugazes e oblíquos as reconstroem muito longe do que elas realmente são.
Perto demais do feminino é sempre muito longe para o masculino. Eros nunca preencherá essa carência, seus objetos de desejo sempre lhe escaparão por algum furo, por algum vazio, por mais astúcia que utilize em sua captura. Somos seres desejantes destinados a incompletude, e é isso que nos faz caminhar. Lacan já sabia dessa carência do pequeno deus Eros pela voz de Sócrates quando retomou o tema do amor nos seus seminários. Perto demais do desejo é sempre longe demais.

REFERÊNCIA

DOR, Joel - Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989 

JAKOBSON, Roman - Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, s/d 

LACAN, Jacques - Seminário 8: A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 
IDEM - Seminário 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009 
IDEM - Seminário 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1982 
IDEM - Escritos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978 
MILLOT, Catherine - Nobodaddy, A histeria no século. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988 
PLATÃO - "O Banquete" in Obras completas, Aguilar, 1972 
ROUDINESCO, Elisabeth - Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Cia. das Letras, 1994